Elaborado por Anna Paula do Vale,
Engenheira Ambiental especialista em Gestão Ambiental e de Recursos Hídricos
Hidrogest Engenharia
A transição energética brasileira avança em ritmo acelerado. A ampliação da participação com a integração de fontes renováveis intermitentes, como a solar e eólica, exige soluções eficazes de armazenamento de energia em larga escala, um novo desafio estrutural ao setor elétrico.
Nesse contexto, as usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs), conhecidas internacionalmente como pumped storage hydropower (US Department os Energy), emergem como tecnologia madura para esse papel, voltando ao centro das discussões técnicas e estratégicas. Mundialmente consolidadas como solução de armazenamento em larga escala, as hidrelétricas reversíveis funcionam como grandes “baterias hidráulicas” ao mover água entre dois reservatórios com base na oferta e demanda de energia. Em outras palavras, elas permitem bombear água para um reservatório superior em momentos de baixa demanda energética e gerar energia nos horários de pico.
Segundo a EPE – Empresa de Pesquisa Energética, apesar de o Brasil ser referência mundial em geração hidrelétrica tradicional, a participação de usinas reversíveis ainda é incipiente, e seu desenvolvimento tem esbarrado em desafios técnicos, econômicos e principalmente regulatórios e hidrológicos.
Seguindo essa perspectiva, a Resolução ANA nº 286/2026, recentemente publicada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), eleva o patamar do debate sobre esse assunto, representando um marco regulatório importante ao atualizar os critérios e estabelecer diretrizes para outorga de uso de recursos hídricos em empreendimentos hidrelétricos de forma a incluir explicitamente as usinas reversíveis no mesmo tratamento técnico aplicável a outros aproveitamentos.
No entanto, para além da regulação energética, há um ponto que precisa ser aprofundado: a dimensão hidrológica dessas usinas.

Avanços regulatórios: o que traz a Resolução ANA nº 286/2026
A Resolução ANA nº 286/2026 estabelece procedimentos, critérios técnicos e regras para a emissão de Declaração de Reserva de Disponibilidade Hídrica (DRDH) e outorgas necessárias ao uso de recursos hídricos em empreendimentos hidrelétricos em corpos d’água de domínio da União, integrando a gestão de água e a regularização hídrica no planejamento energético.
Importante destacar que o texto regulamentar aplica explicitamente às usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs) os mesmos procedimentos administrativos e técnicos aplicados aos demais aproveitamentos hidrelétricos, o que representa um passo importante para sua inclusão formal no arcabouço da gestão de recursos hídricos no país.
Esse avanço reduz lacunas regulatórias que, até então, vinham sendo apontadas pela literatura e por estudos setoriais como barreiras à expansão dessa tecnologia, tanto no Brasil quanto globalmente. Dessa forma, a resolução ANA representa um avanço importante ao passo que:
- Estabelece critérios técnicos para a outorga de uso da água em sistemas reversíveis;
- Diferencia circuitos abertos de fechados;
- Define responsabilidades relacionadas ao monitoramento e controle hídrico;
- Integra a análise de disponibilidade hídrica ao planejamento do empreendimento.
Com esse avanço, o marco regulatório reduz incertezas e traz maior segurança jurídica ao setor ao mesmo tempo que impõe que seja realizado o planejamento hidrológico de forma estruturante e não mais como acessório, sendo este um dos principais desafios.
Dimensão hidrológica: o novo vetor técnico a ser considerado, uma perspectiva que vai muito além da geração de energia
A integração entre o planejamento energético e a gestão dos recursos hídricos é um elemento decisivo. Em um país com múltiplos usos de água (agrícolas, urbanos, industriais e ambientais), a operação de reservatórios para fins de armazenamento de energia precisa ser compatibilizada com a disponibilidade hídrica e as restrições impostas por eventos climáticos extremos.
Esse tipo de governança integrada ainda está em fase de maturação no Brasil, e a inclusão das UHRs na agenda regulatória abre espaço para dialogar sobre a articulação de planos hídricos estaduais e nacionais com estratégias energéticas de longo prazo. Sem essa integração, o armazenamento energético pode gerar pressões adicionais sobre sistemas já vulneráveis.
Apesar do avanço regulatório, a mera emissão de outorgas ou declarações de disponibilidade hídrica não garante a sustentabilidade técnica das UHRs. A operação reversível implica dinâmicas hidrológicas complexas que precisam ser consideradas desde o planejamento, afinal, alteram significativamente a dinâmica operacional. Modelagens hidrológicas robustas e simulações operacionais tornam-se indispensáveis para avaliar cenários, antecipar impactos e subsidiar decisões técnicas e regulatórias.
Ao contrário das hidrelétricas convencionais, que operam predominantemente com o fluxo natural do curso d’água (com as devidas regulações), as usinas reversíveis promovem oscilações operacionais frequentes nos níveis dos reservatórios superior e inferior com os ciclos frequentes de bombeamento e geração, o que provoca:
- Oscilações recorrentes de nível;
- Alterações no balanço hídrico e regimes de vazões locais;
- Potenciais impactos na qualidade da água;
- Interferência na disponibilidade para usos múltiplos
Essas alterações exigem avaliações hidrológicas mais detalhadas para prever impactos ecossistêmicos e garantir usos múltiplos da água, avaliações estas através de modelos hidrológicos robustos, capazes de simular cenários de operação reversível e suas interações com o meio físico, evidenciando as condições essenciais para a tomada de decisões técnicas e a submissão de estudos às autoridades regulatórias. Sem essa base técnica, o risco de conflitos com outros usos da água e de impactos não previstos, pode aumentar significativamente.
Dessa forma, é essencial que haja um monitoramento hidrológico contínuo, uma condição indispensável para a dinâmica e manutenção da atividade da usina reversível. Empreendimentos desse porte dependem de sistemas de monitoramento hidráulico automatizado e integrado, capazes de registrar:
- Níveis e descargas nos reservatórios;
- Vazões sazonais;
- Parâmetros de qualidade da água;
- Sinais de assoreamento ou mudanças abruptas no comportamento do sistema hídrico.
O uso de redes de monitoramento hidrometeorológico, como as mantidas pela Rede Hidrometeorológica Nacional sob coordenação da ANA, é um exemplo de infraestrutura fundamental para esse acompanhamento operacional.
A viabilidade sustentável de usinas hidrelétricas reversíveis depende de um sistema de monitoramento hidrológico que vá além da instrumentação automatizada. Embora sensores e estações telemétricas sejam essenciais, o monitoramento in loco, conduzido por equipes técnicas especializadas e treinadas, permanece como componente estratégico para a confiabilidade dos dados (WMO, 2010; ANA, 2012).
Esse monitoramento envolve atividades técnicas consolidadas na engenharia hídrica que inclui:
- Medições diretas de vazão por métodos hidrométricos padronizados, conforme diretrizes internacionais de hidrometria (WMO, 2010);
- Coleta e análise de sedimentos em suspensão, de fundo e por arraste, fundamentais para avaliação de processos erosivos e assoreamento (Carvalho, 2008);
- Levantamentos topobatimétricos periódicos para atualização da morfologia do reservatório e cálculo de volumes acumulados;
- Avaliação da evolução do fundo do reservatório e das margens, especialmente em sistemas sujeitos a oscilações frequentes de nível.
Esses dados obtidos em campo são posteriormente consolidados, analisados, validados e transformados em informação técnica estruturada e apresentada em relatórios técnicos compondo a elaboração de:
- Curvas-chave (relação cota × vazão), instrumento fundamental para a conversão de níveis em vazões (Tucci, 2013; WMO, 2010);
- Curvas cota × área × volume, essenciais para a gestão volumétrica e o planejamento operacional de reservatórios (ANA, 2012);
- Curvas de descarga sólida e curvas-chave de sedimentos, que subsidiam análises de balanço sedimentar e previsão de assoreamento (Carvalho, 2008);
- Modelos hidrossedimentológicos aplicados à simulação de cenários operacionais.
- Modelos 2D com aplicações em Ruptura Hipotética de Barragens de Água e Rejeitos.
A construção e atualização dessas curvas são fundamentais para:
- Planejamento operacional da usina;
- Previsão de assoreamento;
- Controle de volumes úteis;
- Avaliação de impactos cumulativos na bacia hidrográfica;
- Subsídio técnico para processos de outorga e gestão integrada de recursos hídricos.
Em sistemas reversíveis, onde há ciclos frequentes de bombeamento e geração, a precisão dessas informações se torna ainda mais crítica. Oscilações artificiais de nível podem intensificar processos erosivos, redistribuição de sedimentos e alterações morfológicas, exigindo monitoramento contínuo e sistemático.
Pequenas imprecisões no balanço hídrico podem se refletir em decisões operacionais inadequadas ou conflitos com usos múltiplos da água. Portanto, o monitoramento hidrológico não deve ser visto apenas como cumprimento de condicionantes regulatórias, mas como instrumento técnico estratégico de inteligência hídrica, capaz de transformar dados brutos em suporte qualificado à tomada de decisão na gestão de reservatório e garantir segurança operacional, previsibilidade hídrica e sustentabilidade do empreendimento e da bacia hidrográfica em que está inserido.
Conclusão: o desafio técnico além da regulação
As usinas hidrelétricas reversíveis representam uma oportunidade estratégica para o Brasil ampliar sua flexibilidade energética e consolidar a inserção de fontes renováveis intermitentes. Entretanto, sua implementação não pode ser tratada apenas como uma solução tecnológica ou energética.
A publicação da Resolução ANA nº 286/2026 representa um avanço técnico-regulatório ao trazer as usinas hidrelétricas reversíveis para dentro do escopo formal da regulação de recursos hídricos no país, equiparando com outros aproveitamentos hidrelétricos no processo de emissão de DRDH e outorgas.
No entanto, essa conquista precisa ser acompanhada por uma abordagem hidrológica mais profunda, que incorpore disciplinas como modelagem de reservatórios, gestão integrada de usos múltiplos e monitoramento contínuo de parâmetros hidrológicos.
O avanço regulatório promovido pela ANA é um passo essencial, o próximo passo é garantir que o planejamento, o monitoramento e a gestão hídrica estejam no mesmo nível de maturidade técnico que o debate energético já alcançou, e esse é um desafio hidrológico de análise e implantação primordial.
Somente assim será possível garantir que as UHRs cumpram seu papel estratégico na complementação energética brasileira sem comprometer a gestão sustentável da água, um recurso que, no Brasil, está inexoravelmente ligado ao futuro energético do país. Afinal, o futuro da energia brasileira passa, inevitavelmente, pela água, e a qualidade dessa integração definirá o sucesso das usinas reversíveis no país.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Resolução ANA nº 286, de 10 de fevereiro de 2026 — procedimentos, critérios, obrigações para a emissão de Declaração de Reserva de Disponibilidade Hídrica (DRDH) e outorgas de uso de recursos hídricos para aproveitamentos hidrelétricos, aplicável às UHRs. (https://www.gov.br/ana/pt-br/legislacao/resolucoes/resolucoes-regulatorias/2026/286?utm_source=chatgpt.com)
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Notícia: ANA publica regras atualizadas para outorgas de hidrelétricas, explicando a Resolução 286/2026 e sua aplicação no contexto hidrelétrico. (https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias/ana-publica-regras-atualizadas-para-outorgas-de-hidreletricas?utm_source=chatgpt.com)
ANA – Agência Nacional de Águas. (2012). Guia Nacional de Coleta e Preservação de Amostras – Água, Sedimento, Comunidades Aquáticas e Efluentes Líquidos. Brasília.
CARVALHO, N. O. (2008). Hidrossedimentologia Prática. 2ª ed. Rio de Janeiro: Interciência.
Documento técnico sobre redes hidrometeorológicas no Brasil: monitoramento de recursos hídricos em reservatórios e bacias, parte da Rede Hidrometeorológica Nacional e sua importância para a gestão hídrica. (https://www.gov.br/mdr/pt-br/composicao/orgaos-colegiados/comites-gestores-das-contas-dos-programas-de-revitalizacao-dos-recursos-hidricos/cpr-furnas/anexo-27-modernizacao-da-rede-hidrometeorologica-nacional-rhn.pdf?utm_source=chatgpt.com)
Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Roadmap Usinas Hidrelétricas Reversíveis (UHR) — contexto internacional e potencial para o Brasil, desafios e atributos técnico-operacionais. (https://www.epe.gov.br/sites-pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/PublicacoesArquivos/publicacao-870/Roadmap%20hidrel%C3%A9tricas%20Revers%C3%ADveis%202025_V09.pdf?utm_source=chatgpt.com)
TUCCI, C. E. M. (2013). Hidrologia: Ciência e Aplicação. 4ª ed. Porto Alegre: UFRGS/ABRH.
U.S. Department of Energy. Pumped Storage Hydropower — explicação técnica global sobre armazenamento hidrelétrico reversível como tecnologia de apoio à rede elétrica. (https://www.energy.gov/eere/water/pumped-storage-hydropower?utm_source=chatgpt.com)
WMO – World Meteorological Organization. (2010). Manual on Stream Gauging – Volume I & II. Geneva.